Clarindo Junior

A busca pelo sentido da vida.

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.
(Salmos 19:1-3)

planetaO homem vive uma busca constante pelo sentido da vida. Ele tenta entender coisas que fogem da compreensão humana, que fazem parte de um universo com segredos jamais desvendados pela mente humana. Vivemos num mundo com dimensões magníficas: com cinco continentes, três mares com grandes profundidades, matas virgens jamais exploradas, uma diversidade de animais impressionantes e uma população de aproximadamente sete bilhões de habitantes. A verdade é que o homem atribui tudo isso a um processo de criação e, consequentemente, a existência de um Grande Arquiteto, do Incondicional, do Transcendente, de um Maestro regendo todas essas coisas. Logo surge uma pergunta que todas as gerações da terra tiveram que encarar: De onde viemos e para onde vamos? Quem nós somos? Quem criou o universo? Existe vida após a morte? Essas indagações são a busca do homem pelo sentido da vida, de sua origem e da sua existência.

Essa busca quase sempre nos remete a questão da religião, pois acreditamos ter um grande responsável por traz de tudo. Religião no latim é “religio”, que designava respeito, reverência pelo sagrado. Numa outra forma é “religare”, que significa religar o homem ao divino. É comum ao ser humano atribuir ao Sagrado, ao Uno Primordial, ao Ser Supremo questões como o princípio de todas as coisas. A teologia reformada chama essa busca pelo Sagrado de “senso do divino”. Calvino utilizava a expressão do latim chamada “Sensus divinitatis”, que significa sentimento de divindade, que é dado aos homens o conhecimento de Deus. Ele trabalha esse conceito no sentido de que o homem carrega dentro de si a presença, o sentimento, o senso do seu criador. Por isso o ser humano vive uma busca incansável pelas coisas referente ao sagrado. Logo surge outro questionamento: como toda a criação se mantém em equilíbrio há tanto tempo? Como explicar isso?

Os cristãos creem que Deus, por meio da sua palavra (logos) criou todas as coisas. Segundo a narrativa de Gênesis 1.1-3, antes de tudo, o que existia era somente o caos, algo informe e vazio, um ambiente de muitas águas.

No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Genesis 1.1-3). Em João 1.1-3, o autor chama o ato da criação de  logos. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

Vemos nesta narrativa a palavra que cria, a palavra que se personifica em Jesus, o Verbo que virou gente e que estava com Deus desde o princípio. Segundo o texto, por meio dele todas as coisas passaram a existir. É Deus imanente, é o Logos de Deus. A tradição cristã trabalha o logos como o princípio de toda a existência e aponta para Jesus Cristo como o sentido da vida humana.

Peter Berger fala que Deus, desde o início se revela ao homem, e tudo que o homem faz de bom é uma resposta em amor a essa revelação. Jesus Cristo é a maior imagemdemonstração da revelação de Deus a toda criação. É o próprio Deus que se esvazia da sua glória e se faz homem. Ele deixa a transcendência para viver a imanência. Deixa toda a sua glória para viver a experiência da humanidade. Em relação a isso Leonardo Boff escreveu: “Tão humano assim, só pode ser Deus”. Logo todo ato bom dos homens é uma resposta à ação primeira de Deus, que é coroada na pessoa de Jesus Cristo. As ações como bondade, misericórdia, compaixão nascem em Jesus e se estendem a nós. Jesus é o nosso modelo, o nosso referencial e sentido da nossa vida. Atos 17:28 nos traz essa linda confirmação: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração”.

O senso pelo Sagrado, a busca pelo sentido da vida continuará sendo a busca incansável do homem pelos mistérios do Criador. A criatura olha à sua volta em busca do seu Criador, o finito tenta perscrutar os caminhos do Infinito, das coisas do Imensurável. Rudolf Otto traz algo interessante quando se fala da experiência do homem com o Sagrado. Para isso ele trabalha o significado de mysterium, tremendum et fascinans. É mistério porque se trata de algo que está para além da realidade humana; tremendo porque causa temor; e fascinante porque é atraente, conquista e atrai para perto de si.

Agora, como tornar possível a relação entre humanidade e divindade, imanência e transcendência, homem e o Sagrado? As escolhas de Jesus nos indicam como deve ser a nossa relação com Deus e com o mundo à nossa volta. O exemplo de vida de Jesus nos mostra que não é preciso subir às regiões celestiais nem acessar o sobrenatural para viver a experiência com Deus. É mais fácil do que imaginamos. O Pai já se revelou à nós por meio do Filho, e o faz até hoje. Não se trata de um Deus tão poderoso que está bem distante de nós. Ele deixa de ser Senhor para ser servo ( Mc 10,45) e nos convida para algo mais íntimo, para sermos Seu amigo (João 15.15). A melhor forma de experimentar a Deus é viver intensamente a humanidade, como ele mesmo fez. Diferente de muitos que querem ver a glória, a shekinah, Jesus faz o caminho inverso, ele deixa a glória para viver a humanidade e servir aos homens. Portanto, se queres servir a Deus, faça como Jesus fez, serva aos homens e estarás servindo a Deus. Dessa forma, o ser humano começa a encontrar o seu sentido de ser e de existir, o verdadeiro sentido da vida.

Forte abraço e que o Criador Criativo os abençoe.

Clarindo Junior

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